sábado, 19 de setembro de 2009

Relatividade aplicada à vida

- Bruna, presta atenção: imagine um referencial parado numa plataforma de uma estação de trem, certo?
- Certo...
- Agora imagina que você está no ultimo vagão, sim? Pensando do ponto de vista desse referencial fixo na plataforma, quando o primeiro vagão chegar na plataforma e passar por esse referencial, o último vagão ainda não terá passado pelo mesmo referencial. Se um relógio fosse colocado nesse referencial você não acha que o tempo para o primeiro vagão chegaria antes que o tempo para o último vagão?
- Ah, é...
- Assim ó, os segundos iriam acontecer antes para o primeiro vagão, e enquanto o tempo estivesse passando para o primeiro vagão, ele não teria chegado no último, então o tempo no último vagão estaria atrasado em relação ao primeiro.
- É acho que faz sentido.
- Adorei essa ideia, mas acho que estou com sono.

O metro estava chegando na plataforma, eram sete horas da manhã de um sábado com temores de temporal.

- Olha isso, não é esquisito temos uma boca, dois olhos, um nariz, duas pernas e dois braços como todo mundo dentro deste metro? – disse Bruna pensativa e com os olhos sutilmente assustados – Não é estranho, e mesmo sendo tudo igual a gente é tão diferente um dos outros não é?
- É esquisito, dá uma sensação estranha de eu olhar para todos em volta e saber que sou dessa espécie esquisita. – pensei eu.
- Nossa eu sou um humano!

O sol, por ora, aparecia no céu de várias cores de nuvens de chuva, enquanto andávamos pelo centro de São Paulo. As lojas estavam abrindo e alguns moradores de rua passavam nos espiando desconfiados.

- Sabe, quando olho todos esses prédios enormes, todas as construções, o trânsito, os semáforos, as pessoas andando e tudo o mais, não tem como não pensar: o que é isso tudo? – refletia eu - imagina que isso tudo só faz sentido para nós que estamos vivendo aqui dentro, e olha como somos organizados, sabemos que temos que esperar o semáforo de pedestres ficar verde para sabermos que temos que atravessar a rua. Mas quem foi que disse que tinha que ser o verde, porque não o roxo? Meu Deus quanta coisa esquisita.
- É... A gente só continua fazendo as coisas porque estamos acostumados a tudo isso e achamos que é tudo simples, mas não é não, olha tudo o que criamos, assim, de uma hora para outra.
- Bruna, presta atenção, a gente está dentro de um planetinha e, ai criamos tudo isso aqui, mas poderia ser diferente? Queria poder ver o diferente.

Andamos mais um pouco, divagando enquanto a cidade acordava.

- Estava pensando essa semana, estou nessa minha vida, todas as coisas que aconteceram foram para que eu estivesse vivendo como estou vivendo hoje, mas será que eu não poderia ter várias vidas paralelas, várias outras situações minhas acontecendo que não estão acontecendo agora onde estou? – repliquei novamente. – assim, se algo não aconteceu aqui onde estou, será que em algum outro lugar a outra coisa que não aconteceu poderia estar acontecendo agora? Aí pensa, poderíamos ter diferentes tipos de vida e de felicidade. Se algo que não aconteceu aqui, agora, pudesse ou estivesse acontecendo em algum outro lugar comigo, eu poderia estar feliz em algum lugar daquela maneira que não a de agora. Faz sentido?
- É faz sim! Foi disso que falei um dia, mas de outro jeito.
- Coisa chata a gente né, por que o homem tem que ficar pensando nessas coisas e nunca ter resposta de nada. O que eu estou fazendo aqui? Quero saber droga! Não posso saber não?

Olhei para Bruna e ela fez uma expressão de questionamento.

- É acho que não posso saber das coisas não é, ninguém sabe.
- Estou com fome e sede, mas comprei uma água com gosto de plástico.
- Imagina... – eu disse - não, não, deixa. Parei de ficar pensando assim, tem hora que cansa ficar pensando no mecanismo de tudo, mas é legal!

Terminamos de subir a rua, e o dourado do sol cobria finamente o concreto dos edifícios e casas. Andávamos, caminhávamos e respirávamos, como todos os outros. A continuidade da vida era tão simples e tocante que era possível escutar musica de todas as existências acontecendo ao mesmo tempo. Todos iam e vinham, tínhamos pressa de chegar em nossos destinos que, no fim, não nos levaria a lugar algum ou, talvez, a todos os lugares.

“(...) Daqui desse momento, do meu olhar pra fora, o mundo é só miragem. A sombra do futuro, a sobra do passado, assombram a paisagem.
(...)
A lógica do vento, o caos do pensamento, a paz na solidão. A órbita do tempo, a pausa do retrato, a voz da intuição. A curva do universo, a fórmula do acaso, o alcance da promessa. O salto do desejo, o agora e o infinito. Só o que me interessa "


Lenine – É o que me interessa

Imagem retirada do site: http://reciclocidade.files.wordpress.com/2007/10/avenida-paulista.jpg


Boa filosofia a todos!

* crédito do título para Bruna Carolina Bispo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sobre técnicas e homens

O panorama geral da educação que vemos hoje no Brasil está, muito fortemente arraigada aos processos históricos decorrentes da formação educacional no território nacional. Quando os primeiros catequizadores, provenientes da Europa, ancoraram nos portos brasileiros a fim de catequizar as tribos indígenas, estes não levaram em consideração as diferenças culturais entre eles, os europeus e os índios; e assim, trataram de ensinar aos povos nativos a língua européia para que, posteriormente, fossem lhes ensinadas as doutrinas do Catolicismo.

Com o passar do tempo, os índios perderam sua identidade cultural e, até mesmo, religiosa, e foram submetidos aos princípios e ideologias decorrentes de pensamentos europeus. Começava aí, a formação da educação brasileira que, com o passar dos séculos, foi se adaptando e se modificando conforme as necessidades dos alunos. No início, as escolas eram, apenas, para alunos pertencentes à classe dominante da sociedade, ou seja, pertencente às elites. A partir dessa separação de classes sociais, já se criava uma idealização e uma maior importância para os “bem nascidos” da sociedade, aumentando, assim, as diferenças sociais tão marcantes em nossa sociedade, vistas nos dias de hoje.

Mudanças políticas e estruturais na sociedade foram geradas, universidades criadas, leis de fundamento educacional foram aprovadas, escolas gratuitas foram institucionalizadas e, órgãos, ministérios e estatutos foram feitos para subsidiar a educação no Brasil.

Por mais que projetos de desenvolvimentos educacionais fossem feitos para criar melhorias no alcance da educação à todas as comunidades e, que programas de planejamento na abordagem pedagógica que os professores tinham com os seu alunos fossem feitas, a escola tradicional ainda era um fator importante no ensino.

Os modelos da escola tradicional principiam a submissão do aluno ao mestre, que por ora, é visto como a pessoa dotada de poder intelectual sobre os estudantes. O próprio ambiente da sala de aula nos remete a essa imagem: os estudantes enfileirados de forma regular pela sala, o professor à frente dos mesmos discursando sobre os conteúdos necessários para a formação de um cidadão.

Entretanto, a escola tradicional não vê diferenças singulares que uma pessoa, no caso, que um aluno pode ter do outro. Tratando-se de seres humanos o ambiente escolar não deve ser algo mecânico e completamente técnico, o homem é volúvel e um não é igual ao outro, todos nós temos nossas singularidades, defeitos e qualidades.

Tais diferenças próprias do caráter humano eram evidenciadas num ambiente educacional e vivenciadas de forma a pronunciar o preconceito e a discriminação de uma pessoa com a outra.

Quando um aluno possui maneiras diferentes de aprendizado que não se assemelham ao restante, o grupo percebe essa diferença e tem dois caminhos a seguir: ou o grupo discrimina a pessoa e a exclui do mesmo, ou o grupo inclui essa pessoa aceitando as suas diferenças, compartilhando experiências mutuamente.

O que se vê na esfera educacional brasileira é, justamente, a primeira opção. A forma com que a educação foi estruturada ao longo do processo histórico evidencia o preconceito e a marginalização dos que são denominados “diferentes” do restante da comunidade. Felizmente, grupos de intelectuais e a própria sociedade, vem percebendo que esse preconceito é algo maléfico e atrasado para o próprio desenvolvimento de todas as partes de uma sociedade.

Projetos de inclusão educacional estão sendo criados e implantados a fim de garantir uma melhor qualidade de vida e de aprendizado para os alunos. Quando a criança e, até mesmo, o adolescente, tem contato com outras pessoas, há um desenvolvimento do próprio caráter humano de respeito e de humildade ao próximo. A abordagem natural e inequívoca de perceber que as diferenças entre os homens é algo completamente natural, abre espaço para que diferentes culturas se conheçam e, assim, possam mutuamente transferir e compartilhar visões diferentes de mundo, além de costumes, religião, crenças e maneiras diversas de aprendizado.

O constante contado de um grupo com outros, promove, quase que obrigatoriamente, a noção de nação entre os indivíduos, de cooperação e de cidadania e, também, de democracia. As interfaces das diferenças são simultaneamente insignificantes quando um grupo aprende a aceitar as peculiaridades do outro, e dessa forma, permite que uma pessoa possa aprender com a outra.

Programas de inclusão educacional não dependem unicamente do grupo abordado em questão, mas dos próprios educadores e do próprio governo em ser receptivo ao que tange à estruturação do ambiente escolar.

Os educadores precisam desenvolver técnicas adequadas para lidar com diversos grupos de alunos, assim como, saber como interagir com alunos com algum tipo de deficiência física e de aprendizagem para que, a pessoa em questão não se sinta como uma peça fora do próprio sistema. Os mestres precisam desenvolver ideias de humildade, solidariedade e respeito mútuo entre seus alunos.

O governo deve planejar formas de incorporar pessoas marginalizadas pela situação social dentro da esfera educacional e, promover reformas estruturais no plano de educação e na formação e capacitação de seus professores.

Infelizmente, projetos assim não são fáceis de serem manipulados quando o próprio Brasil já possui uma segregação social herdada de séculos passados. A própria história brasileira é cheia de diferenças entre classes sociais e de preconceito com as diferenças que existem entre os seres humanos.

A inclusão social é algo importante para o desenvolvimento de uma nação e faz com que, fatores como o próprio preconceito, a violência e a marginalização fiquem sem significado no que tange a complementaridade que uma sociedade precisa ter com seus indivíduos e culturas tão diversas.



Imagem retirada do site: http://blog.cancaonova.com/pensandobem/files/2007/11/pai-e-filho1.JPG


Texto por Natalia Iorio Garcia

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Uma pausa ...



Por que as coisas são o que são e não o que não são?


A cidade está movimentada, é noite na capital de São Paulo. Alguns dirigem seus carros pelas avenidas, outros atravessam a faixa de pedestres, alguns dormem, muitos outros conversam. Nessa tamanha alienação de viver cotidianamente igual, ou quase igual, por vezes nos questionamos sobre o significado de tudo e de todos.

Dentro desse questionamento sobre o significado do mundo, está inserida a pergunta feita acima, se o mundo se manifesta da maneira como o enxergamos, poderia ele ser de outra forma? E qual seria essa forma?

São muitas as explicações para tais questionamentos, e suas respostas, quase sempre, provém de doutrinas religiosas e ideologias próprias de cada indivíduo. O homem sempre procurou um meio de encontrar a luz que revelaria toda a sua angústia sobre o intuito de viver, de ser jogado em um planeta com outros seres e outros homens semelhantes a ele e não descobrir o porque.

Enquanto o homem não encontrava a chave para a sua resposta, ele foi descobrindo coisas e inventando outras. No início da história humana, as pessoas caçavam e pouco falavam, com o tempo, os descendentes dessas pessoas começaram a se socializar uma com as outras: armas de caça surgiram, comunidades familiares foram organizadas e animais foram domesticados.

Um pouco mais de tempo se passou, e esse mesmo homem (esse homem descreve o homem coletivo), fez guerras, conquistou territórios, encontrou alguns países perdidos pelo oceano, formou dinastias, impérios e repúblicas.

Dentro desse cenário transformador, as sociedades foram construídas e inserido nesse cenário surgiram as famílias, a religião, a cultura, a escola, a política, a arte e tudo o que nos cerca. Cada pecinha dessa sociedade, chamadas instituições sociais, foram as várias respostas que o ser humano encontrou para dar e manifestar o significado daquelas perguntas iniciais.

Todas essas instituições sociais foram feitas a partir de ideologias pertencentes a um certo grupo de pessoas, nessas ideologias havia o mito, algo criado para sustentar uma sociedade e dar significado a mesma. O mito se concretiza com o rito, que é a realização material do mito.

Nas religiões, por exemplo, o homem criou uma instituição em que são ensinados ou repassados ensinamentos e pensamentos de uma doutrina, uma aceitação sobre algo ou alguma coisa, um conceito criado para ligar pessoas. Inserida nessa instituição há hierarquias e regras, como em qualquer lugar.

Essa forma de o homem organizar o meio em que vive, serviu como meio de garantir uma coesão entre as pessoas e as sociedades. Foram feitas regras que legitimavam tal organização social, punições para quem as não respeitasse, a política surgiu para hierarquizar um país, a polícia para garantir a segurança, a educação para nos doutrinar por meio das ciências, hoje conhecidas, e assim por diante.

Nesse panorama imenso, aprendemos a nos relacionar, a construir amizades e amores; aprendemos a discordar de ideias que nos eram impostas, mas muitas nós a aceitávamos sem argumentar. Outras vezes choramos, sorrimos, brigamos e lamentamos. Todas essas ações, que por vezes acontecem num único dia, revelam os rituais que criamos conforme o nosso mito de viver e, por todas essas relações, estabelecemos um ser de relações criado por nós e simultaneamente por toda a humanidade.

O tempo continuava a passar e o homem continuava vivendo entre amigos e familiares, entre a sociedade e o trabalho. Vivíamos, enfim, sem saber o porquê, continuamos a dormir e acordar sem parar. As vezes, éramos embrulhados por ideias questionadoras dos “porquês” das coisas, mas logo, nos distraíamos com o ônibus que tinha chegado no ponto ou com o toque do telefone.

Vivemos e morremos todos os dias desamparados e inquietos por uma busca cotidiana que não sabemos o que é e nem do que é feita, temos toda a liberdade e a gratidão para se fazer o que quiser, e mesmo assim somos tomados por uma angústia repentina do mesmo porque.

O homem que caçava na pré-história, é o mesmo homem que se vê por toda a humanidade. O mundo foi criado, assim como história, a ciência e a arte. Imprimimos a nossa vida sobre a grande tela do mundo, a colorimos todos os dias pedacinho por pedacinho.

O mundo e o homem estão aí, vivendo sob a luz explicativa das doutrinas religiosas, da cultura ou por si mesmo, porém, temos a obrigação e a liberdade de continuar a fazer tudo o que já foi montado, temos que desempenhar todas nossas obrigações, ou mesmo não fazê-las. Podemos querer não viver mais, mas isto não significa que toda a transformação que nos cerca irá se desmanchar, visto que a morte é um processo lento da vida, e que uma é o limite da outra.

O homem se constrói e simultaneamente constrói toda a humanidade. Há desvios nessa construção humana, alguns querem o seu bem individualizado sem considerar o bem da humanidade, e isso, acaba por abalar as estruturas da coesão social.

O tempo passa e passa, uns dirigem pelas avenidas, outros atravessam a faixa de pedestres, estamos todos dentro da humanidade que é o espelho de cada indivíduo, dia a dia somos incutidos dentro de uma sociedade com regras que nós criamos, com um principal dever de tentar encontrar as respostas para todas as nossas angústias como humanos, pensando no complexo relacionamento e responsabilidade que temos uns com os outros.


Na janela uma moça olha a rua
A árvore balança no vento noturno
Uma luz se acende no horizonte
A lua bóia no mar de estrelas

Tudo para e se move
A dança cotidiana da morte se desenrola veloz
Cutuca os corações apressados pela rua
Leva numa última fotografia
O sorriso da criança

Uma luz se apaga na fazenda
A cada instante, um Narciso nasce
A flor é colhida pela eternidade
E se concretiza na humanidade.



Boa filosofia a todos!



Texto e poema por Natalia Iorio Garcia


Imagem de José Firmino Ribeiro retirada do site: http://www.olhares.com/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um olhar para a lua


Até a época de Aristóteles ninguém havia, ainda, pensado em medir distâncias entre a Terra e qualquer outro astro celeste, ou até mesmo na determinação do tamanho da própria Terra. Aristarco de Samos, astrônomo da Grécia Antiga foi o primeiro a usar métodos de medição de distâncias da Terra em relação aos astros do céu.

Curioso pensar que a palavra de Aristóteles até então, tinha uma grande manifestação sobre os trabalhos dos cientistas antigos, alguns aceitavam sua cosmovisão, outros iam contra a estabilidade da Terra no centro do Universo.

No trabalho de Aristarco de Samos, não há grande importância à sua cosmogonia, entretanto, sua literatura esta centrada na determinação de distâncias. A base de suas medições se principiou com o uso de um instrumento, chamado balestilha, na determinação da posição de estrelas.

A balestilha é um instrumento que media a posição das estrelas numa noite de acordo com os ângulos que as mesmas formavam no céu. Esse instrumento foi muito utilizado para a determinação de latitudes usadas em navegações, usando simples métodos trigonométricos de proporcionalidade entre as distâncias.

O primeiro objetivo de Aristarco foi medir a distância da Terra à Lua e, depois, da Terra ao Sol. Para isso, o astrônomo comparou a Terra com a Lua quando está se encontrava na fase de quarto crescente, em relação a distância da Terra e da Lua ao Sol. Com isso, Aristarco, obteve um triângulo retângulo, em que o vértice do triangulo com 90º, correspondia a posição da Lua.

Feito esse triângulo, Aristarco conseguiu determinar o ângulo que o triângulo formava no vértice em que o Sol se encontrava, um valor correspondente a 3º; a partir desse ângulo, o cientista, usando regras trigonométricas do seno e da tangente, obteve a distância da Terra ao Sol.

Por mais que o método dessa dedução de distâncias estivesse correto, Aristarco não chegou aos valores corretos, que são conhecidas atualmente. O erro do seu método consiste em que é muito difícil se determinar o instante exato da fase da lua no quarto crescente apenas com observações a olho nu.

Faltava, ainda, determinar a distância da Terra à Lua. Para isso, Aristarco, usou um método muito inteligente e aplicável: analisou um eclipse da Lua e mediu o tempo máximo de permanência do eclipse, com isso ele conseguiu determinar quantas luas cabiam dentro do cone da penumbra da Terra.

Primeiramente, com o tempo medido correspondente a duração do eclipse, Aristarco obteve o diâmetro da Terra, e com esse valor comparou com o diâmetro da Lua e, segundo métodos trigonométricos de proporcionalidade, ele descobriu a distância da Terra à Lua.

Novamente, o método usado estava correto, porém os valores estavam incorretos comparados aos valores atuais.

Mesmo usando métodos corretos e sofisticados, Aristarco obteve resultados muito desproporcionais aos conhecidos hoje, não por ter utilizado o método erroneamente, mas porque, era muito difícil e, até certo ponto, impossível de se determinar o minuto correto em que a lua entra na fase de quarto crescente, por exemplo. Até nos dias atuais essa determinação é de difícil visualização.

Outra dificuldade diz respeito aos cálculos de ângulos entre as distâncias do Sol á Terra e da Lua à Terra, também.

Por fim, destaca-se a elegante ideia de Aristarco quanto ao cálculo das distâncias, são métodos completamente utilizáveis e modernos. Apesar dos erros finais, o astrônomo prova que a ciência, assim como a filosofia, não sofre transformações, mas sim, elas evoluem, trazendo um pouco do passado e do presente; onde, os dois juntos formam o futuro que um dia será passado novamente.
O ato transformador é que dá vida as invenções e as descobertas científicas e permite que nos experimentos cotidianos, um pouquinho daquela verdade que todos procuram se mostre mais claramente.
Boa filosofia a todos!

Imagem retirada do site: http://web.educom.pt/fq/biografia/aristarco.jpg

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Sobre os Céus

Como discípulo de Platão, temos Aristóteles, tão conhecido e pronunciado por nós em conversas formais e, por ora, informais. Aristóteles possui um requinte muito apreciado atualmente. Em toda a sua obra, ele mantém o modelo de pensamento igual para todos os aspectos filosóficos de seu pensamento. Isto é, toda a sua estrutura de pensamento é a mesma aplicada em todos os tipos de ciência por ele desenvolvida.

Dentre suas obras, as de maior destaque das ciências naturais são: Meteorologia, Physica, De Caelo e De Generatione et Comptione. O conteúdo dessas obras trata sobre o princípio do movimento das coisas, a construção do pensamento lógico e racional do ser humano, sua cosmovisão e a constante destruição e construção do ser e do pensamento em que todos os homens estão propensos a ter.

Aristóteles foi o primeiro filósofo de que se tem conhecimento a usar métodos de classificação e catalogação de coisas e seres. Como ideia básica, ele divide o mundo, para nós chamado de Universo em quatro elementos mais um: a terra, a água, o ar, o fogo e o éter.

Dentro dessa divisão aristotélica dos elementos, surge a visão do Universo segundo esse filósofo grego. Segundo ele, os quatro elementos, a terra, a água, o ar e o fogo, pertencem ao mundo sublunar, o que significa que esses elementos só existem abaixo da órbita da Lua; já o éter, é encontrado apenas no mundo extralunar, ou seja, acima da órbita da Lua.

Há na obra aristotélica uma grande referência e singularidade no trato com os movimentos dos objetos. Para Aristóteles, todo objeto tem um movimento natural que pertence unicamente àquele corpo, e esse movimento é promovido pelas características de que ele é feito. Dessa maneira, os quatro elementos e o éter, determinavam os movimentos característicos de cada objeto, dependendo da quantidade em que eram encontrados em cada corpo.

O fogo e o ar possuem movimentos naturais verticais retilíneos ascendentes, a terra e a água possuem movimentos naturais verticais retilíneos descendentes. Dentro desta classificação, Aristóteles, argumenta que se um objeto produz um movimento diferente dos já classificados, este corpo ou é feito da composição dos quatro elementos, ou este corpo está desempenhando um movimento violento, que significa um movimento forçado, em oposição àquele movimento natural característicos do corpo em questão.

Foi a partir dessa divisão de movimentos e elementos, que Aristóteles defende sua ideia de que a Terra está parada no centro do universo, porque se o movimento natural da terra é de descender, é racional pensar que o movimento natural da Terra é ficar parada no centro do Universo.

No mundo do éter, os movimentos que os quatro elementos desempenham não são aplicados no mesmo. O movimento natural do éter é o movimento circular uniforme, e é por esse motivo que os planetas, o sol e as estrelas estão orbitando ao redor da Terra, seria impensável que a Terra feita predominantemente do elemento terra se movimentasse ao redor de algo, sendo que este movimento circular é característica de objetos feitos de éter.

Os pensamentos e as visões aristotélicas são muito amplas e argumentativas, os conceitos de movimento são correlacionados segundo dois estados: o da metabolé que é o movimento da transformação que algo ou alguém possa desenvolver, ou o estado da knésis, o movimento físico e instantâneo que um objeto ou um ser possa desempenhar.

Para Aristóteles, o poder de transformação das coisas se classificava num conceito seu denominado Ato e Potência. O Ato é tudo aquilo que existe dentro de um ser, algo que mesmo que se transforme, ou seja, vire a Potência, a essência desse ser sempre estará nesse corpo, mesmo que este esteja em constante transformação dentro da Potência.

Exemplo disso é o crescimento de uma planta. A semente é o Ato da planta, enquanto a Potência é a planta já crescida, depois de sofrer todas as transformações necessárias para tal. Entretanto nesse processo transformativo, o Ato, a semente, continua dentro da Potência da planta, a origem ou a essência da planta continua indefinidamente com ela, independente de sua transformação.

Dentre todas as ideias aristotélicas, as que foram anunciadas acima, não promovem uma relação completa da obra de Aristóteles. Sua literatura é tão vasta quanto o seu pensamento o foi, entretanto, dentro das ciências naturais, mais especificamente a física, os conceitos cosmológicos e dos movimentos naturais, serão fortes argumentos para os cientistas da idade média.

Durante séculos Aristóteles foi o pensador de maior referência do mundo antigo, seus argumentos e sua filosofia possuem conceitos e definições muito coerentes e admissíveis. Mesmo com todos os avanços tecnológicos que temos hoje ao redor do mundo, e mesmo com todos os desvendamentos científicos que temos diariamente, o legado aristotélico possui uma importância enorme para todos os campos do conhecimento humano, e se, ainda, pudéssemos fazer uma análise mais cuidadosa do pensamento aristotélico, poderíamos até acreditar em suas teorias e entender que a história e a filosofia são as pontes que ligam o nosso Ato à nossa Potência.
Boa filosofia a todos!


Imagem retirada do site: http://www.riobranco.org.br/arquivos/sites2008/6_agosto/grupo7/grupo/Imagens/aristoteles2008.jpg

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Platão em espírito

Muito se fala sobre o Platão do Mito da Caverna, do mundo das ideias e do mundo das sensações. Há outras informações sobre Platão que são pouco difundidas, mas que guardam um gigantesco significado, tanto filosófico como cientifico.

A ideia principal de Platão ao escrever a Alegoria da Caverna, ou Mito da Caverna como é mais conhecido, foi a de inventar uma história mítica e usá-la como um método educativo para quem a lesse. Esse processo educativo acontecia por meio de imagens dialéticas que se aproximavam da realidade da pessoa que iria ler a história.

Para Platão, o mundo estava dividido em outros dois, o mundo das sensações e o mundo dos essenciais ou mundo das ideias. O mundo das sensações é um mundo das aparências, um mundo interpretado pelos nossos sentidos e, por esse motivo, o significado que chega até nos desse mundo é falso. Já o mundo das ideias, é um mundo que não temos acesso diretamente, é um lugar onde se pode encontrar a verdadeira essência do Universo e de tudo o que o compõem, é um lugar em que se pode descobrir toda a verdade, esta que só pertence a Deus.

Já que o mundo das ideias concretas não é acessível tão diretamente como o mundo das sensações, Platão afirmava que era preciso treinar a alma humana para se chegar a tal nível, esse treino consistia na meditação e em estudar a essência das coisas, ou seja, estudar o mundo que nos rodeia por meio da razão, da matemática pura.

Dentro dessa concepção de idealidade de mundos, Platão dizia que todo fenômeno que víamos na Terra e no Universo era uma impressão falsa daquilo que não conseguíamos ver, ou seja, a nossa visão e a nossa alma não estão treinadas para enxergar a verdadeira plenitude de todas as coisas.

Exemplo dessa imperfeição dos sentidos foi um problema muito comum entre os cientistas gregos antigos: a irregularidade dos movimentos planetários no céu. Na Antiguidade grega, os pensadores acreditavam na perfeição e na harmonização do cosmos, e de todas as coisas que o compunha. A observação astronômica diária permitiu que esses pensadores percebessem que os planetas não se movimentavam de forma regular na esfera celeste, o que quer dizer que, para esses cientistas, a perfeição do movimento dos astros se resumia ao movimento circular uniforme.

O que era visto no céu noturno da Grécia, era um movimento estranho, como se os planetas fizessem um zigue zague no céu. Esse movimento de zigue zague, também conhecido como o movimento de laçada dos planetas, muito intrigava aqueles filósofos; e foi daí que Platão surgiu com o pensamento de que aquele movimento estranho realizado pelos planetas era uma trajetória interpretada falsamente pelos nossos sentidos.

Dentro dessa visão dos movimentos irregulares dos astros, surge a concepção cosmológica de Platão. Para ele, o Universo, inicialmente, era uma matéria criada de uma substância amorfa, e a forma dessa substância era dada por um “artesão”, uma divindade chamada de Demiurgo.

Demiurgo era o deus de Platão, e esse deus era a maior perfeição de todo o Universo, e como foi esse artesão que criou e deu forma ao Universo, era compreensível que o Universo tivesse as impressões e características desse deus perfeito. A perfeição platônica consistia em três características básicas: tinha que ser bom, belo e descrever movimentos circulares e uniformes no céu.

Ainda sobre a cosmovisão platônica, para esse filósofo, a Terra estava parada no centro do Universo enquanto que os outros planetas orbitavam ao redor do nosso planeta.
Para explicar a imperfeição dos movimentos planetários, Platão desenvolveu a ideia de composição de movimentos, em que dizia que as laçadas dos planetas eram múltiplos movimentos circulares uniformes atuando sobre um corpo, assim, o movimento continuava sendo perfeito, assim como o seu movimento, mesmo que para os nosso sentidos o movimento parecesse irregular e estranho.

Resumidamente, Platão busca explicar as irregularidades do mundo com base em sua alegoria, e prova que, apenas por meio da matemática, que é possível conhecer a verdadeira essência do Universo. A criação de um deus artesão bom, belo e perfeito, condiz com o conceito do mundo das ideias do Mito da Caverna. Platão conecta o mundo racional com o mundo da espiritualidade humana, tenta preservar a ideia de que dentro de toda espiritualidade há certa racionalidade, facilmente interpretada pela matemática e pela geometria.

O deus artesão que deu forma ao universo, nos deu forma também, porque somos parte do Universo; dessa maneira, Demiurgo habita em nossa matéria, e é através da meditação da alma e da interpretação matemática que podemos encontrar esse Demiurgo dentro de nós mesmos, ou seja, só assim que chegamos ao mundo das ideias, segundo Platão.
Boa filosofia a todos!

Imagem de William Blake em que é retratado o momento da criação do Universo por Demiurgo.

domingo, 10 de maio de 2009

Platão em matéria

São três os nomes de que mais temos conhecimento, cotidianamente, sobre a filosofia antiga da Grécia: Sócrates, Platão e Aristóteles. Esses três pensadores constituem a nossa maior ideia e até, a nossa imaginação do que era a Grécia e de como era desenvolvido o pensamento filosófico da época, assim como as ciências naturais.

Não há obras, documentos e nem ao menos fragmentos socráticos, porém, Sócrates, o grande filósofo, foi descrito e moldado, de certa forma, por Platão em suas várias obras. Portanto, não é pouco dizer que foi o próprio Platão que deu vida ao Sócrates. Naquela época era comum pensadores fazerem referências a outros filósofos, a ideia maliciosa que temos de plagio, hoje em dia, não era tão praticada pelos intelectuais antigos.

Platão possuí uma vasta literatura muito renomada até a atualidade. Entre sua literatura se destacam livros como República, que trata de temas como a vida social e o compartilhamento social humano e Timeo, que fala sobre a cosmovisão platônica.

Dizia Platão que os pitagóricos eram impiedosos por não acreditarem em deuses, entretanto, as bases fundamentais da filosofia platônica provinham das ideias pitagóricas. Uma delas é de que toda a materialidade existente na Terra e no universo tinha como estrutura verdadeira a Matemática e a Geometria. Para esse filósofo, os quatro elementos principias da natureza, a terra, o ar, o fogo e a água, eram formados em sua essência primordial, por figuras geométricas.

Dessa maneira, cada elemento correspondia a quatro sólidos geométricos regulares (de lados iguais); ou seja, o fogo era representado pelo tetraedro, a terra pelo cubo, o ar pelo octaedro e a água pelo icosaedro.

Seu conceito consistia, entre outras coisas, na harmonização natural do mundo e do próprio Universo. Para ele, a harmonia e a simetria, seja ela de uma equação, de um rosto ou de um tronco de árvore, eram leis fundamentais que regiam a vida. Essa concepção de harmonia ainda é muito difundida entre nós; Newton quando elaborou suas leis sobre a mecânica, pensava e conceituava acerca da simetria da força, como é facilmente visto no par de forças que a Lei da Ação e Reação descreve, por exemplo. Em tudo procuramos o equilíbrio, o bem e o mal, o claro e o escuro, o frio e o quente, e essa concepção nos parece muito simples e demasiada correta. Foi dessa maneira, que Platão em sua teoria sobre as figuras geométricas, assim como vários outros cientistas, procuravam embasar toda a sua sabedoria e obra.

Sobre a geometria da matéria, ainda faltava uma pergunta: se apenas os quatro elementos fundamentais da natureza tinham representantes geométricos regulares, como as outras coisas que compunham todo o restante da natureza se formavam? Platão encontrou um argumento tão consistente para essa questão, que se a analisarmos rapidamente iríamos atribuir a esse argumento, um novo conceito de atomismo.

Para esse filósofo, a imagem geométrica de cada elemento podia se dividir em partes iguais, assim cada parte quebrada ou dividida, formaria uma nova figura geométrica e assim constituiria um novo elemento. Por exemplo, o fogo correspondente ao tetraedro, se dividiria e originaria dois triângulos de lados iguais, se esses dois triângulos se quebrassem novamente, iriam formar outra figura; dessa maneira, a quebra da figura sucessivamente, originaria diferentes tipos de fogo.

Uma análise mais aprofundada dessa teoria, nos mostra que para uma estrutura ser dividida em outra, esta precisa de espaços vazios para que o fenômeno ocorra, entretanto, Platão abominava a ideia do vazio entre a matéria, para ele o mundo era composto maciçamente de matéria.

Curiosamente, Platão, em sua descrição sobre a estrutura da matéria se contradiz, de certa forma, no que diz respeito a sua crítica feita aos pitagóricos. Os argumentos usados por ele, como o de harmonização do mundo e o da Matemática e da Geometria como sendo o princípio fundamental das coisas, muito se relacionam com as obras pitagóricas. Platão refuta outras ideias, porém nos revela um incrível e elaborado pensamento racional e, ao mesmo tempo, simbólico, do ponto de vista da vida humana.

O equilíbrio que ele tenta demonstrar por meio das figuras geométricas, pode ser interpretado por conceitos sociais, na desigualdade da população numa certa comunidade; religiosos, na busca de um deus formador de tudo, perfeito e inteligível como a matemática é para os homens e, científicos, na harmonização de todos os fenômenos encontrados e presenciados na natureza.

Platão nos mostra sua grandiosa mente e nos faz pensar sobre a grande balança que conduz a vida e o mundo.
Boa filosofia a todos!

Imagem retirada do site:
http://www.fflch.usp.br/df/opessoa/TCFC1-08.htm

domingo, 3 de maio de 2009

A dança do Universo


“Tudo é numero”. Essa afirmação pode ser bastante conhecida entre as pessoas hoje em dia, entretanto, a essência de seu significado é camuflada pelo tempo. O dono dessa frase foi Pitágoras, e foi do seu nome que surgiram os pitagóricos, um grupo de filósofos contemporâneos aos pré-socráticos.

Os pitagóricos eram pertencentes de uma Escola Religiosa, e defendiam uma ideia parecida com a ideia dos atomistas e dos próprios pré-socráticos, a concepção de uma matéria única e indivisível de que todas as coisas eram formadas. A Arché dos pitagóricos, por assim dizer, era a matemática, eram os números os formadores de toda matéria. Parece estranho esse conceito, mas eles acreditavam que o princípio de todas as coisas não era material, mas algo que compunha todo o material existente no mundo. Esses filósofos encontraram na abstração, isto é, na matemática, uma forma de explicar a origem de tudo e de todos.

É uma teoria bastante elegante que tinha como base principal os números simbólicos. Cada número era representado por um arranjo geométrico que, para eles, compunham imagens poderosas, sendo o número dez o mais poderoso e perfeito de todos os números. O número dez era o símbolo da estabilidade, e a soma dos arranjos geométricos que compunham a figura do dez, era chamado de Tectractys e simbolizava a perfeição do mundo.

A visão pitagórica do Universo imprime certas características dos números simbólicos. Para esses pensadores, a estruturação do sistema solar se dava por dez elementos celestes (a Terra, a Anti-Terra, o fogo central, Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno e a esfera das estrelas fixas), esse conjuntos de astros formava o Sistema Pirocêntrico, por conter um fogo central onde todos os outros astros orbitavam.

Dentro dessa cosmovisão é possível perceber uma certa “divinização” que os pitagóricos tinham com o fogo. Atribuíam ao fogo o caráter de transformação que regia todo o mundo, e era por esse motivo que o fogo ocupava a posição central do sistema solar e, como o centro era um ponto de equilíbrio geométrico, não haveria melhor lugar para este ocupar. O fogo não era visto da Terra, porque um outro astro, a Anti-Terra, tinha sua órbita igual a da Terra e, consequentemente, esta ocultava o fogo da visão de qualquer um que estivesse na Terra.

A base dessas teorias descartavam a experiência e partiam para a abstração geométrica e matemática pura; dessa maneira, desenvolveram uma nova forma de conhecimento, em que o pensamento racional por meio da abstração resolveria todas os problemas do mundo.

Um outro conceito bem conhecido entre nos é o da música das esferas. Os pitagóricos afirmavam que o movimento dos astros no Universo produzia um som, chamado som das esferas, que era inaudível para qualquer ser humano por ser constante desde o nascimento do primeiro homem na Terra. Esse som mostra uma relação, novamente, com a matemática, a de harmonização.
Segundo eles, o som formava a harmonia sonora de cada esfera no universo, e essa harmonia condiz, perfeitamente, com a ideia de harmonia e simetria, tal como a beleza, das operações matemáticas.

Por fim, um último esclarecimento muito importante. O tão famoso Teorema de Pitágoras, na verdade não é de Pitágoras. O teorema matemático, como é conhecido hoje, provem dos egípcios, que para dividir corretamente as áreas agriculturáveis na região do Nilo, utilizavam uma fórmula matemática, que mais tarde seria apropriada por Pitágoras, em uma de suas viagens pelo Egito, levando o nome de Teorema de Pitágoras.

Ideias tão antigas como as dos gregos, são vistas, atualmente, em discussões e em congressos ao redor do mundo. A concepção de um princípio formador de tudo, sendo ele a matemática, continua sendo um pensamento bastante difundido entre alguns intelectuais. Partindo do conceito de que a matemática, como quase tudo na Terra, foi formada pelo homem, seria bastante limitado pensar que a matemática, que foi, também, manipulada pelo ser humano e facilmente compreensível pelo mesmo, fosse a grande formadora de tudo o que se há conhecimento no mundo.
Mesmo que o tempo tenha passado, e as ideias teham sido evoluídas, é bastante encantador pensar em números geometricamente harmônicos como sendo a matriz de todos nós e, que dentro de todo esse equilíbrio, ainda ouvimos um som inaudível do movimento da Terra e de todas as estrelas e planetas do nosso céu.
Boa filosofia a todos!


O titulo se refere ao livro do Marcelo Gleiser “ A Dança do Universo – dos Mitos de Criação ao Big-Bang” (São Paulo: Companhia das Letras, 1997)

Imagem retirada do blog: http://laescueladeateanas.wordpress.com/2008/11/14/los-pitagoricos-segun-aristoteles

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A triste crítica de Platão

“É possível reduzir todas as coisas a bolinhas indivisíveis”. Essa ideia foi a base para que alguns filósofos, posteriormente chamados de atomistas, centrassem suas teorias sobre o princípio fundamental da matéria. De todas as obras que esses filósofos desenvolveram, apenas fragmentos e algumas cartas de Epicuro foram conservadas.

No século cinco antes de Cristo, Leucipo de Mileto, Demócrito de Abdera, Epicuro e Lucretius, compunham o grupo dos pensadores atomistas da época. Em suas teorias e obras, há um destaque muito grande para a visão de um Universo materialista, reducionista e sem a existência de deuses.

A cosmovisão desses atomistas era a de um Universo infinito e eterno, onde a Terra era formada por ar e rodeada pelo éter, substância também eterna e indestrutível que existia apenas no Universo acima da órbita da Terra. Acreditavam, também, na existência de infinitos mundos ou universos, e que a movimentação dos mesmos era a causa da destruição ou da criação desses mesmos mundos.

O átomo, como foi denominado o principio fundamental da matéria, foi caracterizado por ser indivisível, imutável e eterno; eles não se atraiam, mas se juntavam por semelhança uns dos outros, se construíam e se desfaziam ao acaso e a sua movimentação no espaço dependia do vazio, da inexistência da matéria. A composição de todas as coisas de que se havia conhecimento, inclusive a alma do homem, era permeada por átomos ou por espaços vazios.

Tanto a ideia de inexistência material no universo, como a inexistência dos deuses, eram formas de pensamento muito radicais para a época, e foram condenadas por muitos outros filósofos que acreditavam no oposto.

Platão chamou os atomistas de pensadores impiedosos por não acreditarem numa força divina reguladora de toda a vida do Universo, e por ser de Platão esse crédito de impiedade que a teoria atomística não obteve tanto sucesso. A imagem de Platão, para os intelectuais daquele século, era de soberania, assim como Aristóteles o seria, posteriormente.

Outros pensadores não concebiam a imagem de um Universo rodeado por átomos e pelo vazio, para eles, a natureza tinha horror ao vazio. Infelizmente essa concepção de horror ao vazio levou séculos para ser destruída, sendo utilizado como argumento de alguns cientistas da Idade Média.

Mesmo sendo desacreditados, os atomistas desenvolveram uma teoria muito equilibrada e verdadeira em comparação ao mundo de hoje, eles foram os primeiros a deduzirem que para a matéria se movimentar era preciso a existência de espaços vazios; e se tudo se reduzia a átomos, inclusive a alma humana, a existência dos deuses era algo totalmente desnecessário para todos os homens.

A descrença nos deuses pelos atomistas, tão criticada por Platão, era o objetivo que esses pensadores tinham de mostrar para os homens que as divindades não eram os reguladores do Universo e que, por esse motivo, elas não deveriam mais as temer e nem sacrificar vidas humanas, como era comum na época, a favor dos deuses.

Por fim, é possível perceber certo requinte e maturidade nas teorias atomistas, tanto pelo lado materialista como pelo lado descrente. Esses filósofos encontraram dentro da suas teorias formas de pensamento libertador para os homens, por meio da descrença total na mitologia da época.

Contudo, todo esse requinte foi visto como impiedade e, de certo modo, retardou diversos avanços que poderiam ter sido antecipados com essa teoria, muito moderna para os parâmetros da época. Os atomistas são conhecidos ate hoje, e mesmo que seus trabalhos não foram reconhecidos na época, agora o seu legado é muito maior, visto que as obras desses pensadores muito se assemelham a teoria atomística atual.
Boa filosofia a todos!


Imagem retirada do blog: http://aprendersemescola.blogspot.com/2008/11/plato-e-educao.html

segunda-feira, 20 de abril de 2009

De volta a Grécia


Na Grécia Antiga, os períodos foram divididos segundo os filósofos de maior importância. Os pré-socráticos são o primeiro grupo que é estudado da Antiguidade Grega e, como o próprio nome já diz, são os que antecedem Sócrates.
Todos os registros encontrados desses filósofos são documentais e nenhuma obra foi conservada, de modo que tudo o que se sabe é de forma indireta. A forma com que o pensamento pré-socrático nos chegou foi a partir de fragmentos ou trechos das obras originais, ou a partir dos doxógrafos, pessoas que falaram ou escreveram sobre a obra desses filósofos.

A principal característica dos pré-socráticos é que a mitologia não desaparece inteiramente de seus pensamentos, eles explicavam o mundo ao seu redor usando a razão, mas com elementos da mitologia da época. Foi desse período que surgiu o pensamento racional que conhecemos hoje.

O principal objetivo desses filósofos era explicar a natureza usando a razão e o mínimo possível de elementos pertencentes à mitologia. Nessa fase da filosofia, os pensadores se preocupavam muito com a origem e a peça fundamental que regia o Universo. Além das questões físicas do mundo, procuravam explicar e criar modelos em que toda aquela natureza se encaixasse e fizesse algum sentido racional para a mente humana.

Com essa ideia de procurar o processo pelo qual o Universo se desenvolvia, os pré-socráticos desenvolveram o conceito de constância fundamental da matéria, mais conhecida como Arché. A Arché era um princípio fundamental material, não espiritual de onde tudo é constituído e construído.

Foram desses conceitos principais que alguns nomes nos foram conhecidos. Tales de Mileto viveu de 640 a 560 anos antes de Cristo e poucas frases suas são conhecidas. Para ele havia, apenas, uma única essência vital para a vida. Sua Arché era a água, porém a água aqui tinha um significado quanto a sua fluidez e não ao arranjo das moléculas da água, isto é, a Arché de Tales era um princípio fluido existente em todas as coisas e não uma substância química.

Um de seus argumentos para que se acreditassem que a água era o princípio fundamental de todas as coisas era de que a Terra flutua sobre água, sendo plausível a sua importância para a formação de toda a natureza. Entretanto, Tales, acreditava que o fato dos objetos se repelirem e se atraírem, como no caso do imã e do âmbar, se dava por manifestação divina. Isso nos mostra, como foi explicitado anteriormente, que o pensamento pré-socrático não era puramente racional, por ora a mitologia aparecia como forma de explicar algum fenômeno natural.

Outro pensador grego da época era Anaximandro, que viveu de 610 a 540 anos antes de Cristo. Para ele a Arché era o Apeíron, que significava “o indefinido”, algo de que ninguém tinha conhecimento, um tipo de matéria-prima de onde todas as coisas proviam e depois retornavam a ela quando eram destruídas. Essa ideia de ida e retorno da matéria na natureza nos parece muito com a ideia de reciclagem que acontece na natureza, assim como no homem quando nasce e morre, deixando na Terra os elementos básicos de que foi, um dia, constituído.
O Apeíron assume certas características: é imortal, nunca envelhece e é algo indestrutível, que abarca tudo e a tudo governa e é de onde surgem todos os opostos conhecidos (luz e trevas, por exemplo).

Inicialmente, a partir do Apeíron, se separava o quente do frio. Com esse conceito, Anaximandro desenvolveu sua cosmovisão de que a Terra ocupava o centro do Universo por ter características físicas do úmido e do frio, além disso, a Terra era envolvida pelo ar e ao seu redor havia uma esfera de fogo que se rompia em forma de tubos, cujos orifícios eram o sol, a lua e as estrelas. Dessa maneira, Anaximandro, tenta explicar a posição que a Terra ocupava no espaço com fatos puramente observacionais, em que se nota a ausência da mitologia para tal explicação.

O terceiro pensador mais conhecido entre os pré-socráticos é o Empédocles, que viveu de 490 a 435 anos antes de Cristo. Na visão desse filósofo, o mundo era constituído de quatro elementos básicos: a terra, a água, o ar e o fogo, chamados de quatro “Archés” básicos. Esses quatro elementos possuíam, para cada um, uma característica mais marcante e correspondiam a um deus da mitologia grega. A terra representava o solo e, portanto era fria e tinha como representante o deus Aidoneus; a água era a liquidez das coisas e era representada pela deusa Nestis; o ar era a fluidez do mundo representada por Hera; e por fim, o fogo era a transformação de tudo e de todos representado pelo deus Zeus.

Na visão de Empédocles, os quatro elementos básicos do Universo apenas se uniam ou se separavam, nunca se criavam ou se destruíam. Para ele, se esses quatro elementos se unissem, haveria a destruição do Universo. A partir desse pensamento, pode-se notar a noção e a necessidade de um modelo que explicasse a natureza baseado no equilíbrio dos elementos e das forças.

Nesse panorama se desenvolveram as primeiras ideias de unidade fundamental da matéria de que temos mais conhecimento. Mesmo que os pensadores pré-socráticos tivessem seus contextos baseados na mitologia dos deuses, eles puderam pensar racionalmente em algo puro e único que formasse todas as coisas do Universo, e foi daí que surgiu o primeiro registro do modelo geocêntrico e geostático proposto por Anaximandro. Desses pensamentos é possível notar ideias que a nosso ver se parecem mais com as ideias atômicas atuais, de algo em que a matéria se resuma unicamente, nota-se, também, sistemas de observação da Terra no contexto do Universo, e da nossa primeira sensação ao olhar para o céu e deduzir que a Terra ocupa a posição central de todo o Universo.
Boa filosofia a todos!

Imagem retirada do site: http://kinemasofia.zip.net/

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Pelas pirâmides


Na Antiguidade, uma civilização se formou na região nordeste da África, essa sociedade que mais tarde seria conhecida como uma sociedade agrária e politeísta, desenvolveu mecanismos de análise da natureza muito sofisticados e precisos para os parâmetros da época.

Os egípcios se instalaram nas proximidades do rio Nilo e usufruíam de suas cheias para movimentar a agricultura e consequentemente a economia da sociedade. No campo das ciências, três áreas merecem destaque nessa civilização: a Astronomia, a Geometria e a Medicina.

A ciência egípcia, diferentemente de outras civilizações antigas, não se preocupava com as relações filosóficas e abstratas das ciências, mas sim com a sua aplicação prática no cotidiano. Porém, todo o método egípcio de investigação da natureza não se resumia a conceitos práticos, apenas. Esse povo permeou seus estudos e descobertas a partir de preceitos baseados em crenças divinas.

Por serem politeístas, cultuavam vários deuses e atribuíam-lhes características da própria natureza. Os egípcios tinham suas vidas dependentes do regime das águas do rio Nilo, portanto, suas crenças se resumiam à divinização da natureza como forma de garantia para terem prosperidade na agricultura. Para exemplificar vale destacar alguns de seus deuses: o deus Set correspondente ao deus do vento quente do deserto; Osíris, deus do sol poente, do Nilo e das sementes; Ìsis, deusa da vegetação e Hórus, deus do sol levante. A partir da observação cotidiana da natureza, desenvolveram a noção da imortalidade, baseados no nascimento e no ressurgimento das sementes.

Atribuindo todos esses preceitos divinos aos seus estudos de observação natural, usaram a ciência como praticidade para as suas vidas. A manipulação de elementos químicos pelos egípcios deu origem à manipulação de substâncias simples, que seriam conhecidas como remédios, surgiu aí a química. Na Astronomia, visualizavam o céu e o movimento dos astros com o intuito de preverem as secas e as cheias do Nilo, com isso criaram um calendário semelhante ao nosso ocidental; nesse calendário o ano possuía 365 dias e era dividido em estações agrárias (cheia, inverno e verão), o mês era dividido em três semanas, as semanas possuíam dez dias e havia ainda, cinco dias festivos durante o ano. Na Geometria e na Matemática, os egípcios conheciam a raiz quadrada, as frações numéricas e calcularam a área do círculo e do trapézio, com aplicação na construção civil, como as pirâmides.

Por último, uma outra área importante para a sociedade egípcia era a Medicina. Nessa área desenvolveram noções de anatomia e do funcionamento interno do corpo humano. Por muito tempo ao longo da história, o corpo do morto era preservado como algo sagrado, e eram proibidas as dissecações; esse pensamento atrapalhou muito o desenvolvimento da Medicina como ciência. Entretanto, os egípcios cultuavam o processo de mumificação dos mortos com a ideia que tinham de imortalidade do corpo e da alma, e para que isso se concluísse, era preciso que as vísceras do cadáver fossem removidas, a fim de preservar melhor os corpos. Desse ritual de mumificação, os egípcios conheceram a anatomia interna humana, seu funcionamento e a importância fundamental que o coração exercia como regulador vital do homem.

A civilização egípcia é vista até hoje como uma sociedade sofisticada e metódica, não apenas cientificamente, mas culturalmente e religiosamente. Infelizmente, os egípcios da Antiguidade pouco influenciaram para as civilizações ocidentais, e pouco dos seus estudos foram analisados, o que temos de informação do Egito provém dos desenhos e das escrituras encontradas em pergaminhos e em tabulas. O que nos ficou, como seu legado, foi um profundo respeito pela astúcia e praticidade desse povo, o restante que nos sobra é o sabor do mistério corroído pelo tempo e pela história.
Boa filosofia a todos!

domingo, 5 de abril de 2009

Vedas


Não se sabe precisamente quando a história indiana realmente teve início, porém, por volta do quinto século antes de Cristo, a ioga e a sanquia já eram os sistemas filosóficos da cultura hindu dominante na época. Buda (Sidarta Gautama), originou o movimento budista que pregava em sua ideologia o amor, a bondade, a solidariedade e a compreensão. Comunidades instaladas no sul da Índia começaram a praticar a propriedade privada e a atividade pastoril. Alexandre, O Grande, conquistou diversas regiões correspondentes ao noroeste do território, que mais tarde foram reconquistadas por outras tribos, formando dinastias e novos modos de governo. Nessa época, o budismo se expandiu para além dos territórios indianos e os gregos migraram para a região central do país, tomando contato com a cultura da região e influenciando filósofos indianos com suas teorias e descobertas. Dessa maneira, se formava um povo e um país que continha e contém visões totalmente amplas e diferentes do nosso mundo ocidental.

Foi nessa construção territorial, que diversas teorias, de certo modo parecidas com as dos gregos surgiram. Algumas dessas teorias aparecem na literatura dos Vedas que conta grande parte do desenvolvimento da ciência dos povos indianos da época. É dos livros Védicos que aparece a concepção cosmológica hindu de que o Universo é cíclico, que obedece a períodos de criação e destruição e é muito velho. A ciência indiana na antiguidade surgiu com assuntos totalmente práticos. Os hindus fundiam ferro para a construção de pilares gigantescos, conheciam a cerâmica, a tinturaria, a fabricação de vidro e a manufatura de pigmentos; porém, todos esses trabalhos e conhecimentos não proviam de uma teoria formulada por eles, os hindus procuravam nas necessidades do cotidiano buscar meios de construir estes produtos. Mais tarde, os hindus e os budistas adotaram a alquimia como fonte de trabalho, concentrando-se na importância do mercúrio porque acreditavam que esse elemento, de alguma forma, poderia se transformar em ouro. Além de toda a sua contribuição prática, os hindus formularam um pensamento que se aproximava de algumas ideias do atomismo grego de Demócrito. O atomismo indiano se firmava na concepção de que os quatro elementos fundamentais da natureza (terra, ar, fogo e água), eram formados por classes de átomos, sendo todos indivisíveis e indestrutíveis; havia, também, mais três classes de elementos encontrados em todo o Universo, o éter, e espaço e o tempo, sendo todos os três contínuos. Contudo, ainda havia outros três tipos de mentes que podiam existir no mundo e no próprio Universo, uma mente onipresente e a outra que é a do indivíduo humano.

Partindo para uma outra área, na física indiana, desenvolveram um conceito para explicar o movimento contínuo de um corpo, a qual chamaram de teoria do ímpeto. A teoria formulava que para um corpo adquirir movimento, este precisa de uma força que o coloque em movimento e que essa força seja a causa da velocidade do corpo, assim, para que esse corpo pare, ele precisa encontrar um obstáculo que ou reduza a sua velocidade ou a anule completamente, resultando em sua parada.

A ciência indiana vai além quando pensadores utilizaram um sistema de números binários e desse sistema formularam a ideia do número zero, porém encontraram grande dificuldade em desenvolvê-lo. Nas histórias de Brahmana e Purana e de Yoga Vasistha, foram encontrados indícios de que os indianos acreditavam que o tempo e o espaço não precisariam fluir numa mesma taxa de variação para diferentes referencias, porém essas histórias não fazem alusão à teoria da relatividade proposta por Einstein.

Partindo de uma análise mais profunda da criação “científica” indiana na antiguidade, pode-se perceber, nos pensamentos e nas teorias hindu, que a religião budista e a sua filosofia, tal como a divisão da sociedade em castas, permeou toda a ciência indiana. Entretanto, nem a filosofia e nem a religião, ou conjunto dessas duas, impediram que os indianos desenvolvessem uma ciência rica nos conceitos e nos detalhes e de profunda sofisticação para os parâmetros da época antiga.
Boa filosofia a todos!


Texto com base no texto de André Bueno do blog: http://indologia.blogspot.com/2008/04/qumica-e-fsica.html
e do livro: "História do Mundo"


Imagem retirada do blog:http://cafecomopiniao.blogspot.com/2008/11/filosofia-indiana-perodo-pico-pt-i.html

segunda-feira, 30 de março de 2009

Na Casa da Sabedoria

Quando pensamos em disseminação científica e na própria ciência, nos transportamos para um tempo longe daqui, onde sempre associamos o conhecimento dos filósofos gregos como o grande passo para o desenvolvimento da ciência ocidental. Entretanto, antes da grande parte dos trabalhos dos gregos serem desenvolvidos, o povo islâmico já há muito trabalhavam nas questões filosóficas e científicas da época.

As ideias de Aristóteles e de todos os outros grandes filósofos da Grécia, só chegaram até o mundo ocidental graças aos árabes. Os islâmicos tiveram contato com manuscritos desses filósofos e os traduziram para o árabe; e foi a partir da exportação de seda e de especiarias do oriente para o ocidente, que esses manuscritos foram traduzidos para o latim e conhecido por toda a comunidade científica da Europa.
Foi nessa época que toda a sociedade europeia se libertava de conceitos teocêntricos da Idade Média e imergia no Renascimento, onde a liberdade e o racionalismo eram a base do desenvolvimento moral e tecnológico de toda a sociedade.

Não se tem conhecimento ainda da totalidade da contribuição islâmica para o ocidente, porque muitos manuscritos e livros escritos em árabe não foram traduzidos e analisados. Porém, muitos outros trabalhos foram conhecidos a partir de referências encontradas em outras obras escritas por europeus.

O tão conhecido Triângulo de Pascal, formulado por Blaise Pascal, na verdade teve sua origem com os chineses e com os árabes; assim como a obra mais conhecida de Ptolomeu, Almagesto, antes sob o nome de Al Majisti em árabe, e mais tarde pelos gregos pelo nome de Hè Magiste Syntaxis, teve forte influências do mundo árabe e clássico no século IX.

O legado árabe vai mais longe, e bases da Matemática e da Astronomia tiveram seu fundamento formulado naquela época tão remota do nosso pensamento. A dedicação à Aritmética e aos símbolos que desenvolveram para representarem os números e o conceito de vazio e do zero, nasceram na comunidade hindu e árabe, e até os dias de hoje são usadas. O aperfeiçoamento da Álgebra, também teve seu destaque, na formulação de equações e do próprio cálculo contemporâneo. Na Trigonometria contribuíram nas formulações das funções seno e co-seno, e ajudaram, também, os portugueses na navegação náutica com o conhecimento das coordenadas de orientação e das posições astronômicas do Sol. Na própria Astronomia, além da revisão dos trabalhos de Ptolomeu sobre os movimentos irregulares dos planetas na esfera celeste, os árabes possibilitaram uma possível influência para o desenvolvimento dos trabalhos de Copérnico.
Aldebarã, Altair, Deneb, Vega e Rigel são nomes das estrelas mais brilhantes vistas no céu que receberam, originalmente, seus nomes em árabe e que são mantidas até os dias de hoje, assim como as palavras zênite (ponto em que a vertical de um lugar vai encontrar a esfera celeste acima do horizonte) e nadir (ponto do céu diretamente oposto ao zênite) tem sua origem na língua árabe.

Mesmo que alguns historiadores denominem os árabes apenas como meros escribas, é incontestável a sua contribuição para a ciência e para a filosofia, assim como para o desenvolvimento do conhecimento no mundo ocidental. Por vezes pensamos que a origem de todo o nosso saber provém unicamente do ocidente, contudo, nos esquecemos da origem verdadeira das informações e nos contentamos com discursos proferidos por interesses políticos e religiosos de uma época, que vão contaminar todos os futuros séculos.
São nomes, quase que impronunciáveis como Al-Khuarizmi e Abu Ali Al Hussain Ibn Abdallah Ibn Sina, que com método e aprofundamento do saber trouxeram para o nosso mundo atual grande parte do nosso pensamento contemporâneo.

Boa filosofia a todos!


*o título se refere ao momento de maior fermento intelectual da civilização islâmica. Fundada em Bagdá por Mamun, a Casa da Sabedoria reuniu intelectuais e filósofos de toda a região para a tradução de manuscritos gregos e para o aprofundamento de ciências como a astronomia, física e medicina.



Com base no texto: “da tradução à criação da civilização árabe” de Nuno Crato
Imagem retirada do portal:http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/noticias_ver.asp?noticia=23630

segunda-feira, 23 de março de 2009

O antes


Geograficamente o sol nasce no Oriente e se põe no Ocidente. Analogamente, pode-se dizer que a ciência ou a base daquilo que um dia seria uma ciência, nasceu primeiramente nas comunidades orientais do Mundo Antigo. Cientistas revelam que tanto os conceitos da Filosofia grega como o desenvolvimento de ciências como a Física na Grécia, tiveram forte influência desse mundo oriental, numa região da Mesopotâmia conhecida como “Crescente fértil”.
A influência dessa região se manifestou na Grécia a partir de viagens que os pensadores gregos faziam pelas áreas correspondentes, atualmente, ao Egito, à Palestina, ao Iraque e ao Irã. Os filósofos gregos devem muito aos conhecimentos científicos produzidos no oriente, entretanto, foi na religiosidade, na cultura e nos mitos dos orientais, que os pensadores gregos encontraram grande subsídio para suas ideias crescerem.

Essas comunidades da Mesopotâmia produziram muitos conhecimentos ligados à Matemática, à Geometria e à Astronomia, devido à necessidade de entender os fenômenos meteorológicos para o melhor desenvolvimento da agricultura.

Como exemplos, temos os Sumérios e os Babilônios que, além da escrita, inventaram um sistema numérico sexagesimal para a contagem do dia (24 horas, 60 minutos e 60 segundos), um calendário de 12 meses e um círculo dividido em 360 graus e, ainda, foram os primeiros a registrarem os primeiros acontecimentos astronômicos ligados ao aparecimento de cometas e eclipses. Os Assírios desenvolveram a ideia de latitude e longitude para a navegação e fortes conceitos sobre a ciência médica.

Nas margens do rio Nilo, desenvolveu-se a civilização egípcia, que era muito ligada à agricultura e ao seu cultivo. Seu legado científico foi a criação de métodos de medição do tempo baseado nos ciclos do Nilo, nas observações lunares e na criação de uma calendário de 12 meses e 30 dias. A geometria e a aritmética egípcia permitiram a construção precisa de templos e pirâmides. Tal precisão permitia aos egípcios a visualização da estrela Sirius nas aberturas laterais e superiores das pirâmides, onde era possível prever as cheias do rio Nilo.

Na China, o desenvolvimento da ciência foi mais profundo e alguns dos conceitos milenares dos chineses se mantém até os dias de hoje. As ideias de harmonia e equilíbrio se traduzem para o que é conhecido como Yin e Yang, que é a representação do positivo e do negativo, onde o positivo não pode se manter sem o negativo e vice e versa. Foi a partir dessa conceituação, que ideas como o equilíbrio de duas forças e o ponto de vista cíclico da vida surgiram.
Os chineses usaram uma forma do que é a teoria ondulatória atual, para explicar as mudanças naturais do mundo que ocorrem no Yin e no Yang e no próprio Universo. Além disso, foram os chineses que começaram o estudo da Ótica Geométrica, da propagação retilínea da luz e de experimentos com câmera escura e com as lentes, levando ao desenvolvimento do primeiro telescópio de que se tem conhecimento.

Dentre todo o conhecimento desenvolvido na Antiguidade pelas comunidades orientais, além de sua disseminação pelo mundo grego, é importante notar, que todos os pensamentos tinham sua base na agricultura e na vida social dessas comunidades. Esses povos criaram estratégias para manipular o tempo e os fenômenos naturais ao seu favor, e assim desenvolveram inúmeras técnicas e princípios. Outro dado importante foi a necessidade dos orientais de encontrar formas racionais e da própria natureza de justificar seus mitos e suas crenças, tal como o horror que tinham de cometas pela sua associação com deuses maléficos.

Todo esse panorama necessário à sobrevivência que regia o mundo oriental, inspirou inúmeros gregos em seus pensamentos sobre a vida, e foi dessa maneira que se formou todo o conhecimento e toda a sabedoria que temos atualmente, foi a partir de crenças e rituais milenares que as ciências se desenvolveram e continuam a glorificar um futuro, ainda, cheio de dúvidas.

Boa filosofia a todos!


Texto com base no livro “Convite à Filosofia” de Marilena Chauí e no livro “História do Mundo”
Imagem de Flamarion (século XIX).

sexta-feira, 13 de março de 2009

O início ocidental


A palavra Filosofia é grega e tem como significado algo como “amizade pela sabedoria” (Philo= amizade e amor fraterno; Sophia= sabedoria). Atribuiu-se originalmente, a Filosofia ao mundo grego, entretanto, isso não significa que outros povos da Antiguidade não desenvolveram formas de sabedoria como os mesmos, porém por questões históricas e de colonização do mundo ocidental, temos hoje, por base primordial a Filosofia dos gregos.

Esses “amigos da sabedoria”, inicialmente, não imaginariam que seus pensamentos se tornariam logo, uma ciência. Foi a partir de observações corriqueiras da natureza e do ambiente que os cercavam, que esses pensadores elaboraram ideias e questionamentos fundamentais para o nosso mundo contemporâneo. Filósofos tão popularmente conhecidos, como Pitágoras, Platão e Aristóteles, começaram a perceber que suas observações cotidianas não eram facilmente explicadas apenas com fundamentos míticos dos seus deuses. Com isso, os pensadores começaram usar métodos racionais de conhecimento e elaborar abordagens sintéticas e que podiam ser repassadas como ensinamentos para as próximas gerações. Nascia aí a Filosofia.

Alguns sábios da época grega vieram na modernidade, a serem chamados de físicos, alguns deles são: Tales, Demócrito, Pitágoras, Arquimedes e Platão, que deixaram um grande legado não apenas para a física, mas para todas as ciências exatas.

A busca por uma verdade única que explicasse todas as coisas do mundo era uma questão que de certo modo, atormentava as mentes desses sábios e era também a grande impulsionadora da criação de modelos e teorias que explicassem nosso mundo visível. Havia contradições e coincidências entre os pensadores, contudo, todos deixaram sua contribuição para as transformações que se seguiram, ao longo dos séculos, no âmbito científico.

Dentre todas as contribuições da filosofia grega, podemos destacar: a ideias de que o conhecimento deve encontrar leis e princípios universais, que a natureza segue uma ordem necessária e não casual ou acidental, que as leis e princípios podem ser compreendidas pelo nosso pensamento, que nosso pensamento racional também opera conforme leis e princípios e a ideia de que o homem aspira ao conhecimento, tal como à sua felicidade.

Todas essas contribuições foram conservadas e revitalizadas na modernidade em leis e teorias como as de Newton e as de Einstein. É importante, também, nos afirmarmos na concepção de que a ciência, assim como a física, nunca evoluiu, mas transformou-se ao longo dos tempos. Nossa ideia de evolução restringe e até anula o que se pensou até aqui, foi à transformação da ciência, o desenvolvimento diário das leis e princípios que nos possibilitou entender e chegar a esse ponto do nosso conhecimento científico.

Boa filosofia a todos!


“Nada parece no Universo: tudo o que acontece nele não passa de meras transformações”.
Pitágoras.



Texto com base no livro “Convite à Filosofia” de Marilena Chauí
Imagem por William Blake, “Newton”.

sexta-feira, 6 de março de 2009

As boas vindas



O que é a ciência? E o que a filosofia tem a ver com ela? Primeiramente, podemos até pensar que uma não tem nada a ver com a outra, porém, as duas se complementam, e até podem ser interpretadas como uma coisa só.

A Filosofia surgiu na Grécia, e era como a reunião de todas as ciências que temos conhecimento atualmente. Os gregos tinham a necessidade de criar uma forma de conhecimento que explicasse os fenômenos naturais que eles observavam ao longo dos dias, para isso foi criada a chamada Filosofia Natural.

Hoje em dia, sabemos que existem inúmeras ciências, das quais damos o nome, por exemplo, de química, física, antropologia, política, etc; no entanto nomes que designam áreas do conhecimento tão diferentes umas das outras, apenas nos remete àquela Filosofia Natural dos gregos, onde todo o conhecimento era um só, e ainda continua sendo.

Dentro da ciência moderna e contemporânea, encontramos muitas transformações e contradições. O nosso senso comum, algo como a nossa “linguagem cotidiana”, nos restringe e faz com que acreditemos em algo falso, mas que em sua essência ela se mostre o contrario. Um belo exemplo disso é a nossa primeira impressão que temos quando olhamos o movimento do sol no decorrer de um dia, vemos aquela imensa luz cruzar o céu, começando ao nascer e terminando ao por do sol. Se não tivéssemos nenhuma instrução física e astronômica de como aquilo realmente acontece, certamente iríamos prever que o sol gira em torno da Terra, quando essencialmente o mecanismo é inverso.

Dentro desse conceito de senso comum, temos ainda a visão, de que todo o cientista, ligado às ciências exatas, tem que ser de alguma forma parecido com aquela imagem que temos do Einstein: cabelos desarrumados, cara de louco, solitário e incompreendido; no entanto, essa interpretação melancólica, e até certo ponto romântica, não tem efeito nenhum dentro da realidade.

Ao longo da construção desse blog, irei tratar de temas centrais como estes e tantos outros relacionados, não unicamente com a física e a filosofia, mas com todas as outras ciências.

Boa filosofia a todos!