segunda-feira, 27 de abril de 2009

A triste crítica de Platão

“É possível reduzir todas as coisas a bolinhas indivisíveis”. Essa ideia foi a base para que alguns filósofos, posteriormente chamados de atomistas, centrassem suas teorias sobre o princípio fundamental da matéria. De todas as obras que esses filósofos desenvolveram, apenas fragmentos e algumas cartas de Epicuro foram conservadas.

No século cinco antes de Cristo, Leucipo de Mileto, Demócrito de Abdera, Epicuro e Lucretius, compunham o grupo dos pensadores atomistas da época. Em suas teorias e obras, há um destaque muito grande para a visão de um Universo materialista, reducionista e sem a existência de deuses.

A cosmovisão desses atomistas era a de um Universo infinito e eterno, onde a Terra era formada por ar e rodeada pelo éter, substância também eterna e indestrutível que existia apenas no Universo acima da órbita da Terra. Acreditavam, também, na existência de infinitos mundos ou universos, e que a movimentação dos mesmos era a causa da destruição ou da criação desses mesmos mundos.

O átomo, como foi denominado o principio fundamental da matéria, foi caracterizado por ser indivisível, imutável e eterno; eles não se atraiam, mas se juntavam por semelhança uns dos outros, se construíam e se desfaziam ao acaso e a sua movimentação no espaço dependia do vazio, da inexistência da matéria. A composição de todas as coisas de que se havia conhecimento, inclusive a alma do homem, era permeada por átomos ou por espaços vazios.

Tanto a ideia de inexistência material no universo, como a inexistência dos deuses, eram formas de pensamento muito radicais para a época, e foram condenadas por muitos outros filósofos que acreditavam no oposto.

Platão chamou os atomistas de pensadores impiedosos por não acreditarem numa força divina reguladora de toda a vida do Universo, e por ser de Platão esse crédito de impiedade que a teoria atomística não obteve tanto sucesso. A imagem de Platão, para os intelectuais daquele século, era de soberania, assim como Aristóteles o seria, posteriormente.

Outros pensadores não concebiam a imagem de um Universo rodeado por átomos e pelo vazio, para eles, a natureza tinha horror ao vazio. Infelizmente essa concepção de horror ao vazio levou séculos para ser destruída, sendo utilizado como argumento de alguns cientistas da Idade Média.

Mesmo sendo desacreditados, os atomistas desenvolveram uma teoria muito equilibrada e verdadeira em comparação ao mundo de hoje, eles foram os primeiros a deduzirem que para a matéria se movimentar era preciso a existência de espaços vazios; e se tudo se reduzia a átomos, inclusive a alma humana, a existência dos deuses era algo totalmente desnecessário para todos os homens.

A descrença nos deuses pelos atomistas, tão criticada por Platão, era o objetivo que esses pensadores tinham de mostrar para os homens que as divindades não eram os reguladores do Universo e que, por esse motivo, elas não deveriam mais as temer e nem sacrificar vidas humanas, como era comum na época, a favor dos deuses.

Por fim, é possível perceber certo requinte e maturidade nas teorias atomistas, tanto pelo lado materialista como pelo lado descrente. Esses filósofos encontraram dentro da suas teorias formas de pensamento libertador para os homens, por meio da descrença total na mitologia da época.

Contudo, todo esse requinte foi visto como impiedade e, de certo modo, retardou diversos avanços que poderiam ter sido antecipados com essa teoria, muito moderna para os parâmetros da época. Os atomistas são conhecidos ate hoje, e mesmo que seus trabalhos não foram reconhecidos na época, agora o seu legado é muito maior, visto que as obras desses pensadores muito se assemelham a teoria atomística atual.
Boa filosofia a todos!


Imagem retirada do blog: http://aprendersemescola.blogspot.com/2008/11/plato-e-educao.html

segunda-feira, 20 de abril de 2009

De volta a Grécia


Na Grécia Antiga, os períodos foram divididos segundo os filósofos de maior importância. Os pré-socráticos são o primeiro grupo que é estudado da Antiguidade Grega e, como o próprio nome já diz, são os que antecedem Sócrates.
Todos os registros encontrados desses filósofos são documentais e nenhuma obra foi conservada, de modo que tudo o que se sabe é de forma indireta. A forma com que o pensamento pré-socrático nos chegou foi a partir de fragmentos ou trechos das obras originais, ou a partir dos doxógrafos, pessoas que falaram ou escreveram sobre a obra desses filósofos.

A principal característica dos pré-socráticos é que a mitologia não desaparece inteiramente de seus pensamentos, eles explicavam o mundo ao seu redor usando a razão, mas com elementos da mitologia da época. Foi desse período que surgiu o pensamento racional que conhecemos hoje.

O principal objetivo desses filósofos era explicar a natureza usando a razão e o mínimo possível de elementos pertencentes à mitologia. Nessa fase da filosofia, os pensadores se preocupavam muito com a origem e a peça fundamental que regia o Universo. Além das questões físicas do mundo, procuravam explicar e criar modelos em que toda aquela natureza se encaixasse e fizesse algum sentido racional para a mente humana.

Com essa ideia de procurar o processo pelo qual o Universo se desenvolvia, os pré-socráticos desenvolveram o conceito de constância fundamental da matéria, mais conhecida como Arché. A Arché era um princípio fundamental material, não espiritual de onde tudo é constituído e construído.

Foram desses conceitos principais que alguns nomes nos foram conhecidos. Tales de Mileto viveu de 640 a 560 anos antes de Cristo e poucas frases suas são conhecidas. Para ele havia, apenas, uma única essência vital para a vida. Sua Arché era a água, porém a água aqui tinha um significado quanto a sua fluidez e não ao arranjo das moléculas da água, isto é, a Arché de Tales era um princípio fluido existente em todas as coisas e não uma substância química.

Um de seus argumentos para que se acreditassem que a água era o princípio fundamental de todas as coisas era de que a Terra flutua sobre água, sendo plausível a sua importância para a formação de toda a natureza. Entretanto, Tales, acreditava que o fato dos objetos se repelirem e se atraírem, como no caso do imã e do âmbar, se dava por manifestação divina. Isso nos mostra, como foi explicitado anteriormente, que o pensamento pré-socrático não era puramente racional, por ora a mitologia aparecia como forma de explicar algum fenômeno natural.

Outro pensador grego da época era Anaximandro, que viveu de 610 a 540 anos antes de Cristo. Para ele a Arché era o Apeíron, que significava “o indefinido”, algo de que ninguém tinha conhecimento, um tipo de matéria-prima de onde todas as coisas proviam e depois retornavam a ela quando eram destruídas. Essa ideia de ida e retorno da matéria na natureza nos parece muito com a ideia de reciclagem que acontece na natureza, assim como no homem quando nasce e morre, deixando na Terra os elementos básicos de que foi, um dia, constituído.
O Apeíron assume certas características: é imortal, nunca envelhece e é algo indestrutível, que abarca tudo e a tudo governa e é de onde surgem todos os opostos conhecidos (luz e trevas, por exemplo).

Inicialmente, a partir do Apeíron, se separava o quente do frio. Com esse conceito, Anaximandro desenvolveu sua cosmovisão de que a Terra ocupava o centro do Universo por ter características físicas do úmido e do frio, além disso, a Terra era envolvida pelo ar e ao seu redor havia uma esfera de fogo que se rompia em forma de tubos, cujos orifícios eram o sol, a lua e as estrelas. Dessa maneira, Anaximandro, tenta explicar a posição que a Terra ocupava no espaço com fatos puramente observacionais, em que se nota a ausência da mitologia para tal explicação.

O terceiro pensador mais conhecido entre os pré-socráticos é o Empédocles, que viveu de 490 a 435 anos antes de Cristo. Na visão desse filósofo, o mundo era constituído de quatro elementos básicos: a terra, a água, o ar e o fogo, chamados de quatro “Archés” básicos. Esses quatro elementos possuíam, para cada um, uma característica mais marcante e correspondiam a um deus da mitologia grega. A terra representava o solo e, portanto era fria e tinha como representante o deus Aidoneus; a água era a liquidez das coisas e era representada pela deusa Nestis; o ar era a fluidez do mundo representada por Hera; e por fim, o fogo era a transformação de tudo e de todos representado pelo deus Zeus.

Na visão de Empédocles, os quatro elementos básicos do Universo apenas se uniam ou se separavam, nunca se criavam ou se destruíam. Para ele, se esses quatro elementos se unissem, haveria a destruição do Universo. A partir desse pensamento, pode-se notar a noção e a necessidade de um modelo que explicasse a natureza baseado no equilíbrio dos elementos e das forças.

Nesse panorama se desenvolveram as primeiras ideias de unidade fundamental da matéria de que temos mais conhecimento. Mesmo que os pensadores pré-socráticos tivessem seus contextos baseados na mitologia dos deuses, eles puderam pensar racionalmente em algo puro e único que formasse todas as coisas do Universo, e foi daí que surgiu o primeiro registro do modelo geocêntrico e geostático proposto por Anaximandro. Desses pensamentos é possível notar ideias que a nosso ver se parecem mais com as ideias atômicas atuais, de algo em que a matéria se resuma unicamente, nota-se, também, sistemas de observação da Terra no contexto do Universo, e da nossa primeira sensação ao olhar para o céu e deduzir que a Terra ocupa a posição central de todo o Universo.
Boa filosofia a todos!

Imagem retirada do site: http://kinemasofia.zip.net/

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Pelas pirâmides


Na Antiguidade, uma civilização se formou na região nordeste da África, essa sociedade que mais tarde seria conhecida como uma sociedade agrária e politeísta, desenvolveu mecanismos de análise da natureza muito sofisticados e precisos para os parâmetros da época.

Os egípcios se instalaram nas proximidades do rio Nilo e usufruíam de suas cheias para movimentar a agricultura e consequentemente a economia da sociedade. No campo das ciências, três áreas merecem destaque nessa civilização: a Astronomia, a Geometria e a Medicina.

A ciência egípcia, diferentemente de outras civilizações antigas, não se preocupava com as relações filosóficas e abstratas das ciências, mas sim com a sua aplicação prática no cotidiano. Porém, todo o método egípcio de investigação da natureza não se resumia a conceitos práticos, apenas. Esse povo permeou seus estudos e descobertas a partir de preceitos baseados em crenças divinas.

Por serem politeístas, cultuavam vários deuses e atribuíam-lhes características da própria natureza. Os egípcios tinham suas vidas dependentes do regime das águas do rio Nilo, portanto, suas crenças se resumiam à divinização da natureza como forma de garantia para terem prosperidade na agricultura. Para exemplificar vale destacar alguns de seus deuses: o deus Set correspondente ao deus do vento quente do deserto; Osíris, deus do sol poente, do Nilo e das sementes; Ìsis, deusa da vegetação e Hórus, deus do sol levante. A partir da observação cotidiana da natureza, desenvolveram a noção da imortalidade, baseados no nascimento e no ressurgimento das sementes.

Atribuindo todos esses preceitos divinos aos seus estudos de observação natural, usaram a ciência como praticidade para as suas vidas. A manipulação de elementos químicos pelos egípcios deu origem à manipulação de substâncias simples, que seriam conhecidas como remédios, surgiu aí a química. Na Astronomia, visualizavam o céu e o movimento dos astros com o intuito de preverem as secas e as cheias do Nilo, com isso criaram um calendário semelhante ao nosso ocidental; nesse calendário o ano possuía 365 dias e era dividido em estações agrárias (cheia, inverno e verão), o mês era dividido em três semanas, as semanas possuíam dez dias e havia ainda, cinco dias festivos durante o ano. Na Geometria e na Matemática, os egípcios conheciam a raiz quadrada, as frações numéricas e calcularam a área do círculo e do trapézio, com aplicação na construção civil, como as pirâmides.

Por último, uma outra área importante para a sociedade egípcia era a Medicina. Nessa área desenvolveram noções de anatomia e do funcionamento interno do corpo humano. Por muito tempo ao longo da história, o corpo do morto era preservado como algo sagrado, e eram proibidas as dissecações; esse pensamento atrapalhou muito o desenvolvimento da Medicina como ciência. Entretanto, os egípcios cultuavam o processo de mumificação dos mortos com a ideia que tinham de imortalidade do corpo e da alma, e para que isso se concluísse, era preciso que as vísceras do cadáver fossem removidas, a fim de preservar melhor os corpos. Desse ritual de mumificação, os egípcios conheceram a anatomia interna humana, seu funcionamento e a importância fundamental que o coração exercia como regulador vital do homem.

A civilização egípcia é vista até hoje como uma sociedade sofisticada e metódica, não apenas cientificamente, mas culturalmente e religiosamente. Infelizmente, os egípcios da Antiguidade pouco influenciaram para as civilizações ocidentais, e pouco dos seus estudos foram analisados, o que temos de informação do Egito provém dos desenhos e das escrituras encontradas em pergaminhos e em tabulas. O que nos ficou, como seu legado, foi um profundo respeito pela astúcia e praticidade desse povo, o restante que nos sobra é o sabor do mistério corroído pelo tempo e pela história.
Boa filosofia a todos!

domingo, 5 de abril de 2009

Vedas


Não se sabe precisamente quando a história indiana realmente teve início, porém, por volta do quinto século antes de Cristo, a ioga e a sanquia já eram os sistemas filosóficos da cultura hindu dominante na época. Buda (Sidarta Gautama), originou o movimento budista que pregava em sua ideologia o amor, a bondade, a solidariedade e a compreensão. Comunidades instaladas no sul da Índia começaram a praticar a propriedade privada e a atividade pastoril. Alexandre, O Grande, conquistou diversas regiões correspondentes ao noroeste do território, que mais tarde foram reconquistadas por outras tribos, formando dinastias e novos modos de governo. Nessa época, o budismo se expandiu para além dos territórios indianos e os gregos migraram para a região central do país, tomando contato com a cultura da região e influenciando filósofos indianos com suas teorias e descobertas. Dessa maneira, se formava um povo e um país que continha e contém visões totalmente amplas e diferentes do nosso mundo ocidental.

Foi nessa construção territorial, que diversas teorias, de certo modo parecidas com as dos gregos surgiram. Algumas dessas teorias aparecem na literatura dos Vedas que conta grande parte do desenvolvimento da ciência dos povos indianos da época. É dos livros Védicos que aparece a concepção cosmológica hindu de que o Universo é cíclico, que obedece a períodos de criação e destruição e é muito velho. A ciência indiana na antiguidade surgiu com assuntos totalmente práticos. Os hindus fundiam ferro para a construção de pilares gigantescos, conheciam a cerâmica, a tinturaria, a fabricação de vidro e a manufatura de pigmentos; porém, todos esses trabalhos e conhecimentos não proviam de uma teoria formulada por eles, os hindus procuravam nas necessidades do cotidiano buscar meios de construir estes produtos. Mais tarde, os hindus e os budistas adotaram a alquimia como fonte de trabalho, concentrando-se na importância do mercúrio porque acreditavam que esse elemento, de alguma forma, poderia se transformar em ouro. Além de toda a sua contribuição prática, os hindus formularam um pensamento que se aproximava de algumas ideias do atomismo grego de Demócrito. O atomismo indiano se firmava na concepção de que os quatro elementos fundamentais da natureza (terra, ar, fogo e água), eram formados por classes de átomos, sendo todos indivisíveis e indestrutíveis; havia, também, mais três classes de elementos encontrados em todo o Universo, o éter, e espaço e o tempo, sendo todos os três contínuos. Contudo, ainda havia outros três tipos de mentes que podiam existir no mundo e no próprio Universo, uma mente onipresente e a outra que é a do indivíduo humano.

Partindo para uma outra área, na física indiana, desenvolveram um conceito para explicar o movimento contínuo de um corpo, a qual chamaram de teoria do ímpeto. A teoria formulava que para um corpo adquirir movimento, este precisa de uma força que o coloque em movimento e que essa força seja a causa da velocidade do corpo, assim, para que esse corpo pare, ele precisa encontrar um obstáculo que ou reduza a sua velocidade ou a anule completamente, resultando em sua parada.

A ciência indiana vai além quando pensadores utilizaram um sistema de números binários e desse sistema formularam a ideia do número zero, porém encontraram grande dificuldade em desenvolvê-lo. Nas histórias de Brahmana e Purana e de Yoga Vasistha, foram encontrados indícios de que os indianos acreditavam que o tempo e o espaço não precisariam fluir numa mesma taxa de variação para diferentes referencias, porém essas histórias não fazem alusão à teoria da relatividade proposta por Einstein.

Partindo de uma análise mais profunda da criação “científica” indiana na antiguidade, pode-se perceber, nos pensamentos e nas teorias hindu, que a religião budista e a sua filosofia, tal como a divisão da sociedade em castas, permeou toda a ciência indiana. Entretanto, nem a filosofia e nem a religião, ou conjunto dessas duas, impediram que os indianos desenvolvessem uma ciência rica nos conceitos e nos detalhes e de profunda sofisticação para os parâmetros da época antiga.
Boa filosofia a todos!


Texto com base no texto de André Bueno do blog: http://indologia.blogspot.com/2008/04/qumica-e-fsica.html
e do livro: "História do Mundo"


Imagem retirada do blog:http://cafecomopiniao.blogspot.com/2008/11/filosofia-indiana-perodo-pico-pt-i.html